As primeiras imagens que tenho da minha vida, remetam-me para os meus 4/5 anos, ou seja á cerca de 18/19 anos.
Já nessa altura havia medos que me apoquentavam diariamente, sentia medo de tudo o que pudesse fazer mal, e preocupava-me com coisas que mais ninguém da minha idade se preocupava.
Lembro-me de uma vez estar sentado num passeio, e de um carro ao estacionar me bater nas costas, senti uma dor, e desatei a correr, apenas parando no hospital, não para ir ter com nenhum médico, mas para ir ter com a minha mãe (santa J), que trabalha como empregada auxiliar de acção medica, e que durante anos foi a minha medica/psicóloga de serviço, mas voltando á historia, cheguei ao hospital desesperado, contudo nem sequer sabia o que tinha, apenas achava que era muito grave. Enfim não passou de um susto, resolvido com uma limpeza e desinfectando.
Actualmente quando converso com a minha mãe sobre o assunto, vão surgindo algumas teorias para este distúrbio, segundo ela, também sofria do mesmo problema na fase da adolescência, também ela tinha “medo da doença”. Contudo isso deve ter passado, sendo actualmente exactamente o oposto (Como a invejo J). Uma outra teoria gira em torno da minha avó paterna, ela também muita queixosa, e na grande maioria das vezes sem motivo aparente, com quem fui criado, e com quem passei grande parte da minha infância e adolescência. Conta-me a minha família, que muitas para me “obrigar a comer”, me dizia que se não comesse “morria”, sendo isto apenas um exemplo, das muitas historias que foram surgindo.
Lembro-me que até aos 13/14 anos as coisas foram mais ou menos pacificas, com uma ou outra historia pontual, como quando com 6/7 anos engoli uma pastilha elástica e obriguei a minha avó a levar-me ao hospital. Contudo a partir do momento em que as coisas começaram a ser mais reais, ou seja, a partir do momento em que comecei a ter a percepção que não somos imortais, as coisas começaram a degradar. Não tenho episódios de grande ansiedade, mas lembro-me que durante anos, nunca me senti complemente confortável, nunca me senti livre, e isso é desgastante.
Aos 20 anos surge a pior fase da minha vida, durante meses a fio, entrei num quadro de psicose, pânico constante, e com 33 visitas em 9 meses ao hospital. Tive 12 enfartos do miocárdio, uns 10 Acidentes Vasculares Cerebrais, e um conjunto infindável de cancros. Felizmente todos eles foram curados em pouco mais de 10 minutos, mas mesmo assim valeu o susto J
Durante cerca de um ano, vivi um desespero inimaginável, tinha medo de sair de casa para não desmaiar, tinha medo de correr para não ter um ataque cardíaco, enfim, tinha medo quase de respirar.
Esta fase apenas foi ultrapassada porque surgiu um convite para entrar no mundo do trabalho, na área que eu pretendia, e mais cedo do que o normal, e com isso ocupei a cabeça durante 3 anos, o que não quer dizer que não acontecessem episódios esporádicos, contudo, nada comparável ao que tinha passado, uma coisa bem mais soft.
Pois bem, isto traz-nos até aos dias de hoje, e até á minha necessidade de escrever este diário. Desde á um mês para cá piorei, voltei a ficar psicótico, mas quero acreditar que vai passar, que é uma fase má, mas que passa. Tenho medo de perder o controlo, de ficar “maluco”, de entrar em depressão, de acabar internado numa clínica psiquiátrica, mas isso não me pode vencer, e por isso necessito de encontrar com quem falar, encontrar com quem partilhar a minha dor, o meu sofrimento.
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